Como nossa produção científica deu origem a ‘ciência salame’

Um estudo publicado recentemente indicou que o número de artigos científicos publicados por pesquisadores caiu 7,4% em 2022, sendo a primeira queda registrada desde 1996.

Sem dúvida, o número é resultado da queda em financiamento que vimos nos últimos anos.

Os ataques às universidades e institutos de pesquisa, além da diminuição das verbas que apoiam as atividades científicas, sobretudo nas quantidades e valores de bolsas de pesquisa e apoio a pesquisadores em treinamento, teve o resultado esperado. Como em uma fábrica, sem mão de obra a produtividade cai.

Muitas notícias refletiram, corretamente, a defasagem entre a queda no financiamento e a primeira queda observada no número de artigos.

É importante lembrar que pesquisas científicas são feitas em escalas de alguns anos, e levamos muito tempo para sentir o impacto dessas políticas no resultado final da pesquisa, que é o artigo.

A perspectiva nefasta é que podemos, então, esperar novas quedas nos próximos anos, ou no mínimo uma demora para recuperar o patamar de produção visto antes.

Meu medo aqui é a ênfase exagerada, a meu ver, que vemos no número de artigos publicados.


É uma métrica importante, claro, refletindo o investimento em ciência de um país. No entanto, as própria agências de fomento no país usam às vezes essa métrica como a única forma de avaliar a produtividade de cientistas brasileiros, financiando mais aqueles que produzem mais artigos.

Sinto que a notícia acaba sendo um reflexo desse modo de pensar, que na minha opinião deve ser reavaliado.

Segundo tenho entendido, o motivo dessa política no Brasil é histórico. Como forma de estimular a produção de artigos científicos no país, há várias décadas os governos pensaram em premiar quem publicasse mais. Talvez fosse um movimento necessário em um país que saíra há pouco de uma ditadura, para restabelecer um ambiente de pesquisa nacional.

No entanto, hoje o cenário é mais complexo. Somos um dos países com maior produção de artigos científicos no mundo, mas ainda com uma porcentagem pequena de trabalhos entre os mais influentes ou mais citados internacionalmente — segundo análise publicada pela Clarivate Analytics, em estudo encomendado pelo próprio governo brasileiro.

O resultado dessa política é o que alguns chamam de “ciência salame”: um pesquisador pode utilizar um trabalho e dividi-lo em vários trabalhos menores, de menor impacto, de forma a garantir mais artigos publicados — como se estivesse fatiando um salame de maneira bem fina.

Aos olhos das agências de fomento, é ótimo se o importante é publicar mais artigos, e esse pesquisador receberá mais dinheiro para continuar suas investigações, mas o impacto da pesquisa brasileira se vê reduzido.

Escrevi um pouco sobre isso há alguns meses, mas volto a repetir: para o crescimento da ciência nacional, devemos planejar como colocar cientistas brasileiros em posição de liderança em grandes projetos, com financiamento cada vez maior do Brasil. Não devemos pensar apenas no número de artigos produzidos, mas como cada um desses artigos tem um impacto, nacional e internacionalmente.

Precisamos de planejamento apropriado para que o Brasil deixe de ser coadjuvante no cenário científico globalizado e assuma o papel de destaque que merecemos.

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